Mestre na arte de marear
O amor não é fácil.
Nunca foi fácil. Nem nunca será fácil. Às vezes parece ser fácil: vem como quem não quer a coisa, vem muito ao de leve, muito devagarinho e enrola o nosso coração em ondas que se rebentam no peito, fazendo-nos pedir cada vez mais água salgada, mais marés... até que, sem darmos por isso, estamos a navegar num mar imenso, intenso; deslumbrados com tanto azul. Aí, deixamo-nos ir ao sabor da corrente...e tudo à nossa volta tende a tomar a forma do amor__ seja ela qual fôr __ e acreditamos no que o nosso olhar desvenda: um horizonte a perder de vista, no entanto, tão fácil de alcançar.
Mas o amor tem várias faces. Há nele um mar tumultuoso, com marés negras. Um mar que esconde lágrimas salgadas, difíceis de ultrapassar. Aí, navegamos contra a maré, revolvemos todo o azul, perdemo-nos em rumos inconstantes, esquecemo-nos da bússola na algibeira. E o nosso olhar transborda à deriva, nesse horizonte a perder de vista.
E aqui, o amor faz-nos marinheiros: endurece-nos os músculos, salga-nos a pele, faz-nos remar, mesmo quando temos vontade de naufragar. Ensina-nos a içar cordas, a bater braços de ferro, a desflorar vagas enormes, arrebatadoras que tendem a transformar a forma do amor em forma de inferno, e eis que a cartografia náutica derrama na nossa alma o inferno de amar.
Aos mais fracos, àqueles que não têm um coração de marinheiro, o amor tende a mergulhar no vazio e a perder-se no abismo dos oceanos; aos que teimam em fazer-lhe frente, àqueles que se arriscam e persistem nesta viagem imprudente e sem destino certo, o amor surge imponente e potente, carregando o coração de outros tons. Outros tons que só alguns têm o privilégio de abarcar...e a estes, aos que não tiveram medo de o enfrentar, o amor retorna à sua forma original, a de embarcação ao largo da costa e faz-nos acreditar nele, e faz-nos encher de esperança que vale a pena avistar, nem que seja de relance, o tal horizonte a perder de vista, mas possível de atracar.
O amor não foi, não é nem nunca será fácil. Traz com ele vários rumos, várias rotas que não conseguimos contornar: vai e vem, vem e vai num movimento conturbado e desorientado que ora nos leva, ora nos arrasta...ora te glorifica tamanho raio de sol, ora te sacode pequeno grão de areia; mas é com ele que o canto das sereias se faz escutar.E é por ele que se navega neste mar desconhecido à procura da sorte, aquela que nos vai fazer desembarcar a bom porto. Porque, apesar de todas as aventuras e desventuras que sofremos com a passagem do amor, este também pode ser porto de abrigo___ o meu tem um nome: Manuel; o teu outro terá.