terça-feira, 31 de janeiro de 2012

O dia frio, desolado como eu o sinto, puxa para a poesia:
verde, de preferência. E arvoreada de ar e esplendor.
Ou de nada, onde talvez o olhar se encoste, na tentativa
de encontrar aí uma morada.



fotografia de Nuno Abreu, Olhares


O que tentam dizer as árvores
no seu silêncio lento e nos seus vagos rumores
o sentido que têm no lugar onde estão,
a reverencia, a ressonância, a transparência
e os acentos claros e sombrios de uma frase aérea.
E as sombras e as folhas são a inocência de uma ideia
que entre a água e o espaço se tornou uma leve
integridade.
Sob o mágico sopro da luz são barcos transparentes.
Não sei se é o ar se é o sangue que brota dos seus
ramos.
Ouço a espuma finíssima das suas gargantas verdes.
Não estou, nunca estarei longe desta água pura
e destas lâmpadas antigas de obscuras ilhas.
Que pura serenidade da memória, que horizontes
em torno do poço silencioso! É um canto num sono
e o vento e a luz são o hálito de uma criança
que sobre um ramo de árvore abraça o mundo.

Antº Ramos Rosa
“(…)

deve existir uma outra
noite
onde caibamos todos

inocentemente felizes
a comer laranjas
e a discutir os problemas de aromas de flores.”

Francisco Duarte Mangas

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

A poesia é uma das raras actividades humanas que, no tempo actual, tentam salvar uma
certa espiritualidade. A poesia não é uma espécie de religião, mas não há poeta, crente
ou descrente, que não escreva para a salvação da sua alma__ quer essa alma se chame
amor, liberdade, dignidade ou beleza.
Sophia de Mello Breyner Andresen


A mim, confortam-me como se fossem anjos caídos do céu e ajudam-me na (longa)
travessia dos dias. E trazem-me sempre qualquer coisa de barco, de cerejeira em flor, de mar
e de espuma, em ramos de luz, que me dão o alento para marear, ou ser árvore que procura
na terra o azul que foge do quotidiano e vai ao encontro do pássaro que não se deixa apanhar. 

domingo, 29 de janeiro de 2012

Música, levai-me:

Onde estão as barcas?
Onde são as ilhas?
Eugénio de Andrade
A vida é o fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos.

F. Pessoa

... a contemplar o domingo com as mãos nos bolsos, em desobrigação total.
Mestre na arte de marear



O amor não é fácil.
Nunca foi fácil. Nem nunca será fácil. Às vezes parece ser fácil: vem como quem não quer a coisa, vem muito ao de leve, muito devagarinho e enrola o nosso coração em ondas que se rebentam no peito, fazendo-nos pedir cada vez mais água salgada, mais marés... até que, sem darmos por isso, estamos a navegar num mar imenso, intenso; deslumbrados com tanto azul. Aí, deixamo-nos ir ao sabor da corrente...e tudo à nossa volta tende a tomar a forma do amor__ seja ela qual fôr __ e acreditamos no que o nosso olhar desvenda: um horizonte a perder de vista, no entanto, tão fácil de alcançar.
Mas o amor tem várias faces. Há nele um mar tumultuoso, com marés negras. Um mar que esconde lágrimas salgadas, difíceis de ultrapassar. Aí, navegamos contra a maré, revolvemos todo o azul, perdemo-nos em rumos inconstantes, esquecemo-nos da bússola na algibeira. E o nosso olhar transborda à deriva, nesse horizonte a perder de vista.
E aqui, o amor faz-nos marinheiros: endurece-nos os músculos, salga-nos a pele, faz-nos remar, mesmo quando temos vontade de naufragar. Ensina-nos a içar cordas, a bater braços de ferro, a desflorar vagas enormes, arrebatadoras que tendem a transformar a forma do amor em forma de inferno, e eis que a cartografia náutica derrama na nossa alma  o inferno de amar.
Aos mais fracos, àqueles que não têm um coração de marinheiro, o amor tende a mergulhar no vazio e a perder-se no abismo dos oceanos; aos que teimam em fazer-lhe frente, àqueles que se arriscam e persistem nesta viagem imprudente e sem destino certo, o amor surge imponente e potente, carregando o coração de outros tons. Outros tons que só alguns têm o privilégio de abarcar...e a estes, aos que não tiveram medo de o enfrentar, o amor retorna à sua forma original, a de embarcação ao largo da costa e faz-nos acreditar nele, e faz-nos encher de esperança que vale a pena avistar, nem que seja de relance, o tal horizonte a perder de vista, mas possível de atracar.
O amor não foi, não é nem nunca será fácil. Traz com ele vários rumos, várias rotas que não conseguimos contornar: vai e vem, vem e vai num movimento conturbado e desorientado que ora nos leva, ora nos arrasta...ora te glorifica tamanho raio de sol, ora te sacode pequeno grão de areia; mas é com ele que o canto das sereias se faz escutar.E é por ele que se navega neste mar desconhecido à procura da sorte, aquela que nos vai fazer desembarcar a bom porto. Porque, apesar de todas as aventuras e desventuras que sofremos com a passagem do amor, este também pode ser porto de abrigo___ o meu tem um nome: Manuel; o teu outro terá.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Confiar o bastante na vida para denunciar todos os fantasmas do negativo
Gilles Deleuze
Sexta-feira:
Prenúncio ou promessa de qualquer coisa branca

e limpa para dar algum sossego à alma que se
teima irrequieta.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Boa-noite...
que o sonho
nos mostre o lugar onde descansaremos as nossas dores,
onde percamos o pó que arrecadámos durante o dia. 

A Rosa e o Mar

Eu gostaria ainda de falar
da rosa brava e do mar.
A rosa é tão delicada,
o mar tão impetuoso,
que não sei como os juntar
e convidar para um chá
na casa breve do poema

O melhor é não falar:
sorrir-lhes só da janela.

Eugénio de Andrade
O meu Poeta preferido.
O meu companheiro de anos: aquele que foi e é sempre presença assídua cá em casa.
Um dos meus amores consentidos. Feliz. Renovado e resistente. Muito meu, muito cúmplice,
muito vivo e muito ave. E a cada instante, maior e maior e maior...
BOM DIA!

Hoje é dia da GULA.
Então, façamo-nos ao dia com um apetite voraz...

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012


Por aqui, reina a desobrigação. A diversidade. Retomam-se e largam-se caminhos.
Permite-se entrada a fumadores, mas também a não fumadores.
Ateiam-se silêncios e perturbam-se sentidos.
Como dizia o poeta: aqui é proibido proibir.
« Não sou alegre nem triste.
Verdade, não sei que sou. (...)»