terça-feira, 17 de julho de 2012

 A Reboleira é a freguesia onde vivo.
Terra, na sua maioria, feita de apartamentos do J. Pimenta, com algumas lojas de chineses pelo meio e umas tantas vivendas, onde vivem famílias que partilham espaços divididos. A vista alcança algumas árvores fustigadas pelos seus habitantes, caixotes de lixo de várias cores e tamanhos, que dia a dia, são depenicados pelos pombos que coabitam nas redondezas; nas traseiras, uma praça que fechou e, em vez de vender peixe e fruta, presta-se a ser alugada para comícios do PCP e o belo do Pingo Doce, que veio dar outra animação às ruas e, onde o povo vai a toda a hora, em busca das promoções onde possa  gastar a pouca moeda que procura, ávidamente, no bolso.
  Na minha rua, chamada de Herculano de Carvalho, assaltam velhinhas à descarada e os miúdos andam ao deus-dará, como o da canção descreve " parecem bandos de pardais à solta" e tiram macacos do nariz, sem pudor nem constrangimento.
 Alguém teve a fenomenal ideia de plantar palmeiras num vaso e elas transbordam em raízes e tronco, rebentando-os e dando à paisagem aquele ar de " caco partido", que tão bem lhe assenta...e que vai servindo de recreio aos gaiatos, onde inventam um tempo para fugir do lar apertado em que vivem.

 E depois há amizades, como em todo o lado... e risos, por mais despropositados e puros que sejam:
é que ter uma amiga da Reboleira, tem muito que se lhe diga; puxa pela imaginação e traz-nos a
Lucinda ( que quando a filha era pequenita, e lhe perguntavam onde morava, respondia sempre " moro na Burroleira", de sorriso inocente na cara ), coisa a que ela não desistia de corrigir, na esperança desta, um dia, deixar-se de burrices e encaminhar-se para o lado mais lúdico do nome da rua e consolar-se que, o tal de Herculano de Carvalho, foi aquele tipo responsável pela introdução e pelo desenvolvimento da narrativa histórica em Portugal.

 Mas acho que isso, por aquelas bandas, não interessa nada... e a rua é mais conhecida por causa da fábrica dos iogurtes Yoplait, que há uns tempos existia por ali.





domingo, 15 de julho de 2012

Sou do tempo das infâncias carregadas de liberdade. Do esplendor da relva, dos joelhos esfolados, das mães à janela a chamarem por nós; quais pássaros desvairados, virmos em debandada a chilrear
e a protestar por mais um pouco de tempo na rua. Rua essa, que não era vista como perigosa nem
inóspita, mas antes, espaço aberto: tanto profano como sagrado, onde íamos crescendo e fazendo a
escolha entre o bem e o mal, através dum " macaquinho do chinês" ruidoso, ou de uma " linda, linda
falua que lá vem, lá vem", cantada com toda a pompa e circunstância.

Sou do tempo dos Domingos em vizinhança, das avós vestidas a rigor para o passeio semanal, das
petiscadas viçosas e valentes,  que cada um fazia nos quintais ou varandas e desse ar prenhe de cozinhados que invadia a roupa estendida e o nariz das gentes. Das tardes acompanhadas dos tremoços lançados ao vento, a ver qual chegava mais longe; das cascas dos pevides cuspidas, à toa,
pelo caminho sem grande cerimónia, como se semeássemos gomos de liberdade.

Era o tempo dos Domingos da família, fabricado numa indolência de rastros azuis, ou verdes, ou de
outra cor qualquer, cuja única ambição eram os laços e afectos, de que na altura, nem dávamos conta.
Era o tempo da mãe nova, ágil e desenvoltada a dar conta do recado; do pai novo, conquistador de gargalhadas que terminavam sempre a ver o mundo dos seus ombros __ dunas resistentes que desvendavam generosamente os acontecimentos à beira de nós, no mais alto de nós.
Era o tempo dos Domingos desembrulhado como desembrulhamos um rebuçado que dá água na boca.

Hoje, desembrulho-o e fico com água nos olhos...

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Há a vida e há a morte. A morte faz parte da vida e a vida, neste momento, está em morte lenta. Um ou outro exemplo que nos faz vibrar, pouco mais... o futuro a saber a pouco, a ser areia movediça, a trazer um plano cada vez mais nitido de injustiça, de solidão.
Cada vez mais amigos que partem, que não partem, que se afastam e que se embrenham pelas esquinas do tempo nas tristezas das lidas. Em morte lenta. Em vida ameaçada.
Mais do que nunca, o sobreviver a todo o custo salta à vista desarmada. E um viver que não é viver faz-nos pensar que aquele amigo que partiu, afinal, só agora descansa em paz.
Façamos uma pausa para repensar tudo o que bate à nossa porta, e não nos deixemos cair na tentação de morrer antes do tempo.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Minha menina, cerejinha em flor,
menina que teimo ver sempre menina,
sempre cerejinha a baloiçar nos meus ramos, minha menina cerejinha de sorriso fresco que dá gosto...
quando choras
as cerejas apodrecem na fruteira, deixam de ser cerejas e chegam
lívidas, como nunca deveriam ser.


 ( quando um filho está triste, a mãe entra em desvario
).


Imagem de Jennifer Mazza