A Reboleira é a freguesia onde vivo.
Terra, na sua maioria, feita de apartamentos do J. Pimenta, com algumas lojas de chineses pelo meio e umas tantas vivendas, onde vivem famílias que partilham espaços divididos. A vista alcança algumas árvores fustigadas pelos seus habitantes, caixotes de lixo de várias cores e tamanhos, que dia a dia, são depenicados pelos pombos que coabitam nas redondezas; nas traseiras, uma praça que fechou e, em vez de vender peixe e fruta, presta-se a ser alugada para comícios do PCP e o belo do Pingo Doce, que veio dar outra animação às ruas e, onde o povo vai a toda a hora, em busca das promoções onde possa gastar a pouca moeda que procura, ávidamente, no bolso.
Na minha rua, chamada de Herculano de Carvalho, assaltam velhinhas à descarada e os miúdos andam ao deus-dará, como o da canção descreve " parecem bandos de pardais à solta" e tiram macacos do nariz, sem pudor nem constrangimento.
Alguém teve a fenomenal ideia de plantar palmeiras num vaso e elas transbordam em raízes e tronco, rebentando-os e dando à paisagem aquele ar de " caco partido", que tão bem lhe assenta...e que vai servindo de recreio aos gaiatos, onde inventam um tempo para fugir do lar apertado em que vivem.
E depois há amizades, como em todo o lado... e risos, por mais despropositados e puros que sejam:
é que ter uma amiga da Reboleira, tem muito que se lhe diga; puxa pela imaginação e traz-nos a
Lucinda ( que quando a filha era pequenita, e lhe perguntavam onde morava, respondia sempre " moro na Burroleira", de sorriso inocente na cara ), coisa a que ela não desistia de corrigir, na esperança desta, um dia, deixar-se de burrices e encaminhar-se para o lado mais lúdico do nome da rua e consolar-se que, o tal de Herculano de Carvalho, foi aquele tipo responsável pela introdução e pelo desenvolvimento da narrativa histórica em Portugal.
Mas acho que isso, por aquelas bandas, não interessa nada... e a rua é mais conhecida por causa da fábrica dos iogurtes Yoplait, que há uns tempos existia por ali.
terça-feira, 17 de julho de 2012
domingo, 15 de julho de 2012
Sou do tempo das infâncias carregadas de liberdade. Do esplendor da relva, dos joelhos esfolados, das mães à janela a chamarem por nós; quais pássaros desvairados, virmos em debandada a chilrear
e a protestar por mais um pouco de tempo na rua. Rua essa, que não era vista como perigosa nem
inóspita, mas antes, espaço aberto: tanto profano como sagrado, onde íamos crescendo e fazendo a
escolha entre o bem e o mal, através dum " macaquinho do chinês" ruidoso, ou de uma " linda, linda
falua que lá vem, lá vem", cantada com toda a pompa e circunstância.
Sou do tempo dos Domingos em vizinhança, das avós vestidas a rigor para o passeio semanal, das
petiscadas viçosas e valentes, que cada um fazia nos quintais ou varandas e desse ar prenhe de cozinhados que invadia a roupa estendida e o nariz das gentes. Das tardes acompanhadas dos tremoços lançados ao vento, a ver qual chegava mais longe; das cascas dos pevides cuspidas, à toa,
pelo caminho sem grande cerimónia, como se semeássemos gomos de liberdade.
Era o tempo dos Domingos da família, fabricado numa indolência de rastros azuis, ou verdes, ou de
outra cor qualquer, cuja única ambição eram os laços e afectos, de que na altura, nem dávamos conta.
Era o tempo da mãe nova, ágil e desenvoltada a dar conta do recado; do pai novo, conquistador de gargalhadas que terminavam sempre a ver o mundo dos seus ombros __ dunas resistentes que desvendavam generosamente os acontecimentos à beira de nós, no mais alto de nós.
Era o tempo dos Domingos desembrulhado como desembrulhamos um rebuçado que dá água na boca.
Hoje, desembrulho-o e fico com água nos olhos...
e a protestar por mais um pouco de tempo na rua. Rua essa, que não era vista como perigosa nem
inóspita, mas antes, espaço aberto: tanto profano como sagrado, onde íamos crescendo e fazendo a
escolha entre o bem e o mal, através dum " macaquinho do chinês" ruidoso, ou de uma " linda, linda
falua que lá vem, lá vem", cantada com toda a pompa e circunstância.
Sou do tempo dos Domingos em vizinhança, das avós vestidas a rigor para o passeio semanal, das
petiscadas viçosas e valentes, que cada um fazia nos quintais ou varandas e desse ar prenhe de cozinhados que invadia a roupa estendida e o nariz das gentes. Das tardes acompanhadas dos tremoços lançados ao vento, a ver qual chegava mais longe; das cascas dos pevides cuspidas, à toa,
pelo caminho sem grande cerimónia, como se semeássemos gomos de liberdade.
Era o tempo dos Domingos da família, fabricado numa indolência de rastros azuis, ou verdes, ou de
outra cor qualquer, cuja única ambição eram os laços e afectos, de que na altura, nem dávamos conta.
Era o tempo da mãe nova, ágil e desenvoltada a dar conta do recado; do pai novo, conquistador de gargalhadas que terminavam sempre a ver o mundo dos seus ombros __ dunas resistentes que desvendavam generosamente os acontecimentos à beira de nós, no mais alto de nós.
Era o tempo dos Domingos desembrulhado como desembrulhamos um rebuçado que dá água na boca.
Hoje, desembrulho-o e fico com água nos olhos...
quinta-feira, 12 de julho de 2012
Há a vida e há a morte. A morte faz parte da vida e a vida, neste momento, está em morte lenta. Um ou outro exemplo que nos faz vibrar, pouco mais... o futuro a saber a pouco, a ser areia movediça, a trazer um plano cada vez mais nitido de injustiça, de solidão.
Cada vez mais amigos que partem, que não partem, que se afastam e que se embrenham pelas esquinas do tempo nas tristezas das lidas. Em morte lenta. Em vida ameaçada.
Mais do que nunca, o sobreviver a todo o custo salta à vista desarmada. E um viver que não é viver faz-nos pensar que aquele amigo que partiu, afinal, só agora descansa em paz.
Façamos uma pausa para repensar tudo o que bate à nossa porta, e não nos deixemos cair na tentação de morrer antes do tempo.
Cada vez mais amigos que partem, que não partem, que se afastam e que se embrenham pelas esquinas do tempo nas tristezas das lidas. Em morte lenta. Em vida ameaçada.
Mais do que nunca, o sobreviver a todo o custo salta à vista desarmada. E um viver que não é viver faz-nos pensar que aquele amigo que partiu, afinal, só agora descansa em paz.
Façamos uma pausa para repensar tudo o que bate à nossa porta, e não nos deixemos cair na tentação de morrer antes do tempo.
sexta-feira, 6 de julho de 2012
Minha menina, cerejinha em flor,
menina que teimo ver sempre menina,
sempre cerejinha a baloiçar nos meus ramos, minha menina cerejinha de sorriso fresco que dá gosto...
quando choras
as cerejas apodrecem na fruteira, deixam de ser cerejas e chegam
lívidas, como nunca deveriam ser.
( quando um filho está triste, a mãe entra em desvario).
Imagem de Jennifer Mazza
menina que teimo ver sempre menina,
sempre cerejinha a baloiçar nos meus ramos, minha menina cerejinha de sorriso fresco que dá gosto...
quando choras
as cerejas apodrecem na fruteira, deixam de ser cerejas e chegam
lívidas, como nunca deveriam ser.
( quando um filho está triste, a mãe entra em desvario).
Imagem de Jennifer Mazza
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