sábado, 24 de novembro de 2012

 
 Foto de Yann Pendaries        
 
 
Antigamente, lá mais para trás, eu complicava tudo; era muito nova, muito "pelo na venta", muito metidinha no meu mundo...
Hoje continuo metidinha no meu mundo, mas duma maneira completamente humilde... ( o que é que afinal se conquista? o que é que afinal se tem que mostrar aos outros? o que é que afinal é mesmo nosso?)

Um dia destes, vamos ao médico e a história é sempre a mesma: exames, por causa disto e daquilo;
análises por causa disto ou daquilo; sempre a pairar qualquer coisa mal, que não se liga, porque antigamente estava sempre tudo bem. Surpresa das surpresas o agora traz sempre algo que não está bem: Irra!

Olha-se para o lado: o cancro ou o "cagaço" do cancro acompanha a nossa jornada; ou é um vizinho, ou é um amigo, ou há a suspeita sobre nós mesmos, ou isto ou aquilo...
Portanto, o que se leva mesmo é saber estender as mãos, agradecer o bom que nos apareça pela frente, absorvê-lo porque não é de se demorar, deixarmo-nos de "narizes empinados", manda pedra aqui, manda outra acolá, põe ali um filtro, e tal e tal e tal... e começarmos a respeitar tudo o que nem sequer damos conta que existe à nossa volta.

O tempo conta-se ao contrário, percebem?
E por enquanto, há tempo para isto.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

A minha filha não é dada à poesia.
Mas hoje, ao estar muito feliz por ter tido a nota para dispensar a um exame, chegou-se perto de mim e disse:" Lembras-te daquele poema que me lias, enquanto eu desenhava na mesa da cozinha, que tinha a ver com pintar gaiolas, pássaros e penas...."
Ficámos as duas, num silêncio só nosso a escutar o poema, e apesar de saber que não liga a poemas, um estrondo por dentro aconteceu-nos.
Não sei se por ter a ver com pássaros...
Não sei se por lho ter lido tantas vezes...
Não sei se por lho ter dedicado quando atravessava uma dezena de anos...
Não importa; sei que se lembrou dele enquanto estava feliz.


Deixo-o transcrito em baixo, traduzido pelo "meu" Poeta.


 Para fazer o retrato de um pássaro

Pinta primeiro uma gaiola
com a porta aberta
pinta a seguir

qualquer coisa bonita
qualquer coisa simples
qualquer coisa bela
qualquer coisa útil
para o pássaro.
Agora encosta a tela a uma árvore
num jardim
num bosque
ou até numa floresta.
Esconde-te atrás da árvore
sem dizeres nada
sem te mexeres…
Às vezes o pássaro não demora
mas pode também levar anos
antes que se decida.
Não deves desanimar
espera
espera anos se for preciso
a rapidez ou a lentidão da chegada
do pássaro não tem qualquer relação
com o acabamento do quadro.
Quando o pássaro chegar
se chegar
mergulha no mais fundo silêncio
espera que o pássaro entre na gaiola
e quando tiver entrado
fecha a porta devagarinho
com o pincel.
Depois
apaga uma a uma todas as grades
com cuidado não vás tocar nalguma das penas
Faz a seguir o retrato da árvore
escolhendo o mais belo dos ramos
para o pássaro
pinta também o verde da folhagem a frescura do vento
e agora espera que o pássaro se decida a cantar.
Se o pássaro não cantar
é mau sinal
é sinal que o quadro não presta
mas se cantar é bom sinal
sinal de que podes assinar.
Então arranca com muito cuidado
uma das penas do pássaro
e escreve o teu nome num canto do quadro.

(tradução de Eugénio de Andrade do original “Pour faire le portrait d’un oiseau” de Jacques Prévert)

domingo, 7 de outubro de 2012


« Com o coração se pede. Com o coração se procura. Com o coração se bate e é com o
coração que a porta se abre.»
Tudo bem, que os animais são nossos amigos. Que não os devemos abandonar, maltratar, etc,etc;que mal se aviste um sem dono e sem destino, se gere uma corrente de solidariedade tremenda, se contacte todos os SOS's possíveis e imaginários da Protecção dos ditos, e alguns mais venturosos até são levados para casa e dá-se-lhes o tal do lar, tão ansiado... agora, onde está essa corrente humanitária quando passamos pelo jardim e num banco está deitado um homem em farrapos a dormitar, quando atravessamos a estrada e reparamos que uma mulher andrajosa rebusca o lixo, ávidamente, à procura de algo para comer, algo para vestir ou vender ou sei lá p'ra quê, quando à nossa volta seres humanos sem destino e sem dignidade se amontoam na paisagem, que cada vez se torna mais da mesma, mais "não se passa nada, isto é o pão de cada dia",sem ninguém que lhes deite a mão...?????????

É, acordei bem cedo. Fui dar uma caminhada pelo meio da neblina cerrada, o Domingo ainda por acordar, as árvores enormes a pingar orvalho, um verde a despontar lá no alto, mas que não traz salvação cá em baixo...
A sensação de perdição a caminhar ao meu lado e aquela enorme culpa de pertencer aos que têm, como veredicto final, os fantasmas que se encobrem com uma ou outra boa acção no dia-a-dia.

Eu sei. É tão mais fácil levar e tratar e chamar e socorrer um bichinho e ficarmos com aquele
gosto bom de que fizemos o que estava certo fazer.

sábado, 18 de agosto de 2012

Andou de roda de mim toda a tarde... a danada. A espraiar as suas asas, seduzindo-me como quem não quer a coisa... estancava por segundos a desafiar os meus instintos, cirandava ao redor, olhos fixos num azul a perseguir, como quem diz, vem...
comigo; vem comigo...
Fez-me companhia lá no alto, aterrando ao de leve como a oferecer-se para ser notada. Fez-me companhia quando trocou risadas ( para mim eram risadas) ao ludibriar-me com poses que nunca consegui captar através da máquina, que alucinada, focava em milhentas direcções.
Por fim, deixou-se cair num esquecimento qualquer, segundos a mirar o horizonte, talvez a rota a seguir, como se eu nem estivesse por ali. Foi aí que... zás! Apanhei-a meio tremida, neste momento de reflexão.
De rabo alçado, levantou vôo e nunca mais lhe pus a vista em cima, pois no fundo, estraguei-lhe a dimensão que a encerrava.
Fiquei só, do meu pedestal, a sentir o peso rouco do oceano...

sábado, 4 de agosto de 2012

A minha mãe não tem facebook.
É do tempo do papel e da caneta.
É do tempo de estar em casa a cuidar de nós: todos. Acima de tudo, do meu pai.
Que por culpa dela se fez menino em vez de se tornar um homem.
O meu pai tem facebook, mas não faz nada sem a minha mãe.
É do tempo de chegar a casa e a casa ser tudo o que ela é: a mãe, a guardadora do lar.
Ele não tem culpa. Ele é apenas o menino dentro da casa, que se fartou de ser
homem lá fora.
Ela é para ele o pilar da nossa casa. A Mãe.
Ele é para ela o chefe de família. O Pai. Mas também um de nós: meninos para sempre
debaixo das suas saias.
Ambos, são o lar que tem a vida lá dentro.
Ambos, são a vida que se crava no nosso lar
como o bem que procura o bem e ainda bem.


Foto retirada da Net.


terça-feira, 17 de julho de 2012

 A Reboleira é a freguesia onde vivo.
Terra, na sua maioria, feita de apartamentos do J. Pimenta, com algumas lojas de chineses pelo meio e umas tantas vivendas, onde vivem famílias que partilham espaços divididos. A vista alcança algumas árvores fustigadas pelos seus habitantes, caixotes de lixo de várias cores e tamanhos, que dia a dia, são depenicados pelos pombos que coabitam nas redondezas; nas traseiras, uma praça que fechou e, em vez de vender peixe e fruta, presta-se a ser alugada para comícios do PCP e o belo do Pingo Doce, que veio dar outra animação às ruas e, onde o povo vai a toda a hora, em busca das promoções onde possa  gastar a pouca moeda que procura, ávidamente, no bolso.
  Na minha rua, chamada de Herculano de Carvalho, assaltam velhinhas à descarada e os miúdos andam ao deus-dará, como o da canção descreve " parecem bandos de pardais à solta" e tiram macacos do nariz, sem pudor nem constrangimento.
 Alguém teve a fenomenal ideia de plantar palmeiras num vaso e elas transbordam em raízes e tronco, rebentando-os e dando à paisagem aquele ar de " caco partido", que tão bem lhe assenta...e que vai servindo de recreio aos gaiatos, onde inventam um tempo para fugir do lar apertado em que vivem.

 E depois há amizades, como em todo o lado... e risos, por mais despropositados e puros que sejam:
é que ter uma amiga da Reboleira, tem muito que se lhe diga; puxa pela imaginação e traz-nos a
Lucinda ( que quando a filha era pequenita, e lhe perguntavam onde morava, respondia sempre " moro na Burroleira", de sorriso inocente na cara ), coisa a que ela não desistia de corrigir, na esperança desta, um dia, deixar-se de burrices e encaminhar-se para o lado mais lúdico do nome da rua e consolar-se que, o tal de Herculano de Carvalho, foi aquele tipo responsável pela introdução e pelo desenvolvimento da narrativa histórica em Portugal.

 Mas acho que isso, por aquelas bandas, não interessa nada... e a rua é mais conhecida por causa da fábrica dos iogurtes Yoplait, que há uns tempos existia por ali.





domingo, 15 de julho de 2012

Sou do tempo das infâncias carregadas de liberdade. Do esplendor da relva, dos joelhos esfolados, das mães à janela a chamarem por nós; quais pássaros desvairados, virmos em debandada a chilrear
e a protestar por mais um pouco de tempo na rua. Rua essa, que não era vista como perigosa nem
inóspita, mas antes, espaço aberto: tanto profano como sagrado, onde íamos crescendo e fazendo a
escolha entre o bem e o mal, através dum " macaquinho do chinês" ruidoso, ou de uma " linda, linda
falua que lá vem, lá vem", cantada com toda a pompa e circunstância.

Sou do tempo dos Domingos em vizinhança, das avós vestidas a rigor para o passeio semanal, das
petiscadas viçosas e valentes,  que cada um fazia nos quintais ou varandas e desse ar prenhe de cozinhados que invadia a roupa estendida e o nariz das gentes. Das tardes acompanhadas dos tremoços lançados ao vento, a ver qual chegava mais longe; das cascas dos pevides cuspidas, à toa,
pelo caminho sem grande cerimónia, como se semeássemos gomos de liberdade.

Era o tempo dos Domingos da família, fabricado numa indolência de rastros azuis, ou verdes, ou de
outra cor qualquer, cuja única ambição eram os laços e afectos, de que na altura, nem dávamos conta.
Era o tempo da mãe nova, ágil e desenvoltada a dar conta do recado; do pai novo, conquistador de gargalhadas que terminavam sempre a ver o mundo dos seus ombros __ dunas resistentes que desvendavam generosamente os acontecimentos à beira de nós, no mais alto de nós.
Era o tempo dos Domingos desembrulhado como desembrulhamos um rebuçado que dá água na boca.

Hoje, desembrulho-o e fico com água nos olhos...

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Há a vida e há a morte. A morte faz parte da vida e a vida, neste momento, está em morte lenta. Um ou outro exemplo que nos faz vibrar, pouco mais... o futuro a saber a pouco, a ser areia movediça, a trazer um plano cada vez mais nitido de injustiça, de solidão.
Cada vez mais amigos que partem, que não partem, que se afastam e que se embrenham pelas esquinas do tempo nas tristezas das lidas. Em morte lenta. Em vida ameaçada.
Mais do que nunca, o sobreviver a todo o custo salta à vista desarmada. E um viver que não é viver faz-nos pensar que aquele amigo que partiu, afinal, só agora descansa em paz.
Façamos uma pausa para repensar tudo o que bate à nossa porta, e não nos deixemos cair na tentação de morrer antes do tempo.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Minha menina, cerejinha em flor,
menina que teimo ver sempre menina,
sempre cerejinha a baloiçar nos meus ramos, minha menina cerejinha de sorriso fresco que dá gosto...
quando choras
as cerejas apodrecem na fruteira, deixam de ser cerejas e chegam
lívidas, como nunca deveriam ser.


 ( quando um filho está triste, a mãe entra em desvario
).


Imagem de Jennifer Mazza

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Talvez um dia eu consiga chegar lá...
à pessoa que trago guardada em mim.

Por enquanto,
o nó na garganta,
o cerco do medo,
o rio que não canta,
o inútil dos dias,
o infinito das horas,
o terror das noites,
o rio que me pranta,
resvalam em falésias de segundo
num cedo e tarde que se recusa a desaguar.

Constantin Brancusi

sábado, 7 de abril de 2012

Quando se ouviu um tiro na Praça Syntagma,
logo houve quem dissesse: “É a polícia que ataca !”.
Mas não, Dimitris Christoulas trazia consigo a arma,
a carta de despedida, a dor sem nome, a bravura,
e vinha só, sem medo, ele que já vivera os tempos
de silêncio e chumbo do terror dos coronéis.
Mas nessa altura era jovem e tinha esperança.
Agora tudo isso findara, mas não a dignidade,
que essa, por não ter preço, não se rende nem desiste.

Dimitris Christoulas podia ser apenas um pai cansado,
um avô sem alento para sorrir, um irmão mais velho,
um vizinho tão cansado de sofrer. Mas era muito mais
do que isso. Era a personagem que faltava
a esta tragédia grega que nem Sófocles ou Édipo
se lembraram de escrever, por ser muito mais próxima
da vida do que da imaginação de quem efabula.
Ouviu-se o tiro, seco e certeiro, e tudo terminou ali
para começar logo no instante seguinte sob a forma
de revolta que não encontra nas bocas
as palavras certas para conquistar a rua.
Quando assim acontece, o silêncio derruba muralhas.
Aos jovens, que podiam ser seus filhos e netos,
o mártir da Praça Syntagma pediu apenas
para não se renderem, para não se limitarem
a ser unidades estatísticas na humilhação de uma pátria.

Não lhes pediu para imitarem o seu gesto,
mas sim que evitassem a sua trágica repetição.
E eles ouviram-no e choraram por ele, e com ele,
sabendo-o já a salvo da humilhação
de deambular pelas lixeiras para não morrer de fome.

Até os deuses, na sua olímpica distância,
se perfilaram de assombro ante a coragem deste gesto.
Até os deuses sentiram desprezo, maior do que é

costume, pela ignomínia de quem se vende
para tornar ainda maior a riqueza de quem manda.
A Dimitris bastou um só disparo, limpo e breve,
para resumir a fogo toda a razão que lhe ia na alma.

Estava livre. Tornara-se herói de tragédia
enquanto a Primavera namorava a bela Atenas,
deusa tantas vezes idolatrada e venerada.
Assim se despedia um homem de bem,
com a coragem moral de quem o destino não vence.

Quando o tiro ecoou na praça de todas as revoltas,
Dimitris Christoulas deixou voar uma pomba,
uma borboleta, uma gaivota triste do Pireu
e disse, com um aceno: “Eu continuo aqui,
de pé firme, porque nada tem a força de um homem
quando chega a hora de mostrar que tem razão”.
Depois vieram nuvens, flores e lágrimas,
súplicas, gritos e preces, e o mártir da Syntagma,
tão terreno e finito como qualquer homem com fome,
ergueu-se nos ares e abraçou a multidão com ternura.


6 de Abril de 2012
                                  José Jorge Letria

quinta-feira, 8 de março de 2012

Para alguns, entre nós, o implacável dia chega
da grande escolha, da grande decisão
de dizer Sim ou Não.
Aquele que em si sentir a sede de afirmar
pronuncie-se sem demora.
Os caminhos da vida abrir-se-ão para ele
numa cornucópia de benesses.
Mas o outro, o que nega,
ninguém o poderá acusar de falsidade,
e repetirá cada vez mais alto a sua descrença.
Está no seu direito – e, contudo, esta pequena diferença.
Um “Não” por um “Sim” – afunda uma vida inteira.



 Constantive Cavafy

O dia está a entardecer. Não tarda muito a noite.
Entre mim e tudo o que se passa, o tempo é guardado
em horas que as mãos não sentem agarrar.
Sim, vou a caminho de casa.
Não, ainda não me perdi no caminho. 
Mas a noite não tarda aí...



A todas as mulheres que estão em casa, que estiveram toda uma vida a cuidar dos maridos, do lar, dos filhos, de tantas coisas que planeiam, gerem e amontoam pelo quotidiano; a todas essas que a sociedade despreza e não são valorizadas, porque metidas em casa num frenesim de trabalho que ninguém paga e que as desgasta: a essas mulheres dedico o dia de hoje, não porque sejam maiores ou mais importantes do que as outras, que saem todos os dias para o trabalho e que também dão conta de um rol de tarefas quase impossível de administrar, mas (e acima de tudo) porque são tantas vezes esquecidas, ignoradas e até anuladas, como mulheres de Armas, que valem pelo que são e pelo que enfrentam todos os dias, no seu mais perfeito anonimato.
— Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio… Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro… Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida… compreende?… a nossa vida, a vida inteira, está ali como… como um acontecimento excessivo… Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida. E então pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três tópicos que se equacionam. Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos, do Amor ou da Morte. Percebe? Uma dessas abstracções que servem para tudo. O cigarro consome-se, não é?, a calma volta. Mas pode imaginar o que seja isto todas as noites, durante semanas ou meses ou anos?

Herberto Helder
Foto tirada na Net.
 
 
 
Há dias assim. E noites que nunca mais acabam...
 
 

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

"O homem prende-se a muitas coisas inúteis: riqueza, ambição, interesses mesquinhos: vive emaranhado numa teia. De forma que não tem tempo de ver, nem de ouvir, nem de se conhecer. Quantas criaturas existem que nunca olharam para o céu? Natureza, árvores, montes, rios, esse pélago que vejo do meu quarto deixa-os indiferentes, ...as horas de preguiça e de sonho deixam-os indiferentes. Nunca tiveram tempo para amar as coisas simples e grandes da vida. O que é eterno não o viveram. Alguns morrem sem terem reparado que existiram. (...) Habituar-se a gente a viver com ideias simples é como habituar-se a andar com fatos velhos e rotos. Indigna os outros. De forma que tem de se viver arredado.Para se ser feliz na vida é preciso ser-se pobre. Sentir-se que o pão que se come não é tirado a nenhuma boca, nem o lume que nos aquece roubado a alguma velhice friorenta. As coisas desprezadas são as melhores da vida: a paz, as horas esquecidas, a água desnevada que se bebe, os minutos de silêncio em que se sente Deus connosco. De que serve acumular ódios, ambições, riquezas? Não é isto demais para uma vida terrena? A vida artificial é que transformou o homem. Da vida artificial é que nasceu o orgulho, a ambição, os erros, o crime, e até a piedade. Se todos vivêssemos da verdadeira existência, o homem seria feliz. Como se pode redimir tudo isto? Pregando o Amor. Só o Amor nos pode ainda salvar."
Raul Brandão, Os Pobres

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

 
Foto de Sangsinkhong



Noutros Lugares



Não é que ser possível ser feliz acabe,
quando se aprende a sê-lo com bem pouco.

Ou que não mais saibamos repetir o gesto
que mais prazer nos dá, ou que daria
a outrem um prazer irresistível. Não:
o tempo nos afina e nos apura:
faríamos o gesto com infinda ciência.
Não é que passem as pessoas, quando
o nosso pouco é feito da passagem delas.
Nem é também que ao jovem seja dado

o que a mais velhos se recusa. Não.
É que os lugares acabam. Ou ainda antes
de serem destruídos, as pessoas somem,
e não mais voltam onde parecia
que elas ou outras voltariam sempre
por toda a eternidade. Mas não voltam,
desviadas por razões ou por razão nenhuma.

É que as maneiras, modos, circunstâncias
mudam. Desertas ficam praias que brilhaam
não de água ou sol mas de solta juventude.
As ruas rasgam casas onde leitos
já frios e lavados não rangiam mais.
E portas encostadas só se abrem sobre
a treva que nenhuma sombra aquece.

O modo como tínhamos ou víamos,
em que com tempo o gesto sempre o mesmo
faríamos com ciência refinada e sábia
(o mesmo gesto que seria útil,
se o modo e a circunstância persistissem),
tornou-se sem sentido e sem lugar.

Os outros passam, tocam-se, separam-se,
exatamente como dantes. Mas
aonde e como? Aonde e como? Quando?
Em que praias, que ruas, casas, e quais leitos,
a que horas do dia ou da noite, não sei.

Apenas sei que as circunstâncias mudam
e que os lugares acabam. E que a gente
não volta ou não repete, e sem razão, o que
só por acaso era a razão dos outros.

Se do que vi ou tive uma saudade sinto,
feita de raiva e do vazio gélido,
não é saudade, não. Mas muito apenas
o horror de não saber como se sabe agora
o mesmo que aprendi. E a solidão
de tudo ser igual doutra maneira.
E o medo de que a vida seja isto:
um hábito quebrado que se não reata,
senão noutros lugares que não conheço.

Jorge de Sena (1967)
A boca fecha-se, nos lábios que a prendem, e um gemido sente-se
muito lá ao fundo; tão lá ao fundo que só nós damos por ele.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Toda a tarde estive a brincar com o amor ( aquele que nem se dá por isso ). A brincar para o amor
Foto de Michael Wilkinson



achar graça e deixar-se ficar; a brincar como se o amor não fosse um caso sério; a brincar para  que
o amor pairasse ao de leve sem se dar conta de que o tempo passava e passava e passava... até que
por fim, no meio da brincadeira, viesse connosco para casa.
Acho que consegui.
Mas agora, espreitando aqui de dentro, veio-me um medo... será ele a querer brincar comigo, desta
vez?

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

A grandeza do homem consiste em que ele é uma ponte e não um fim; o que nos pode agradar no homem é ele ser transição e queda.
Friedrich Nietzsche
Mulher, como te chamas? Não sei.
Quando nasceste, tua origem? Não sei.

Por que cavaste um buraco na terra? Não sei.
Há quanto tempo estás aqui escondida? Não sei.
Por que mordeste o meu anelar? Não sei.
Sabes, não te faremos mal nenhum. Não sei.
De que lado estás? Não sei.
É tempo de guerra, tens de escolher. Não sei.
Existe ainda a tua aldeia? Não sei.
E estas crianças, são tuas? Sim.

Wislawa Szymborska (1923-2012)



Prémio Nobel de 1996, considerada como o
"Mozart da poesia", morreu ontem aos 88 anos.
Fim de janeiro

Janeiro trouxe aquela coisa da crise, que nos vai enrolando a todos;
aquela coisa da seca, que nos inunda de preces a pedir chuva;
aquela coisa da quimioterapia da mãe ( que vai no sétimo tratamento),
que nos traz um tempo de estiagem, contrariado a toda a hora.
Mas, chegou ao fim, e estamos todos cá: a fazer pela vida, e por isso,
não há crise, nem seca, nem quimio que derrube o que somos, porque
todos estamos armados de árvores à espera da vinda da Primavera.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Não sei se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.


Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito, ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha tristeza é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que eu amo não sei. Amo. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.

António Ramos Rosa

 

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Eu disse ao meu coração, ao meu pobre coração:
─ Não tens vergonha da tua fraqueza?
A glória, o amor, a pândega, o ouro,
não saberão tentar a tua preguiça?

Eu disse ao meu coração, ao meu pobre coração:
─ Odeia, fere, embriaga-te, beija,
bate mais forte, grande cobarde, ou morre
para sempre de desgosto e tristeza.

Ou talvez já estejas morto, tu, que nem sabes o que vale
o canto de um alaúde, o estouro de um punhal,
uma clara noite, uma rosa terna?

E o meu pobre coração, o meu coração disse-me:
─ Para quê dar mais cinzas ao esquecimento?
E, velho, sorriu-me, sem perceber nada
.

Màrius Torres                    
                                             Foto de Kaylynn Deveney    

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

O dia frio, desolado como eu o sinto, puxa para a poesia:
verde, de preferência. E arvoreada de ar e esplendor.
Ou de nada, onde talvez o olhar se encoste, na tentativa
de encontrar aí uma morada.



fotografia de Nuno Abreu, Olhares


O que tentam dizer as árvores
no seu silêncio lento e nos seus vagos rumores
o sentido que têm no lugar onde estão,
a reverencia, a ressonância, a transparência
e os acentos claros e sombrios de uma frase aérea.
E as sombras e as folhas são a inocência de uma ideia
que entre a água e o espaço se tornou uma leve
integridade.
Sob o mágico sopro da luz são barcos transparentes.
Não sei se é o ar se é o sangue que brota dos seus
ramos.
Ouço a espuma finíssima das suas gargantas verdes.
Não estou, nunca estarei longe desta água pura
e destas lâmpadas antigas de obscuras ilhas.
Que pura serenidade da memória, que horizontes
em torno do poço silencioso! É um canto num sono
e o vento e a luz são o hálito de uma criança
que sobre um ramo de árvore abraça o mundo.

Antº Ramos Rosa
“(…)

deve existir uma outra
noite
onde caibamos todos

inocentemente felizes
a comer laranjas
e a discutir os problemas de aromas de flores.”

Francisco Duarte Mangas

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

A poesia é uma das raras actividades humanas que, no tempo actual, tentam salvar uma
certa espiritualidade. A poesia não é uma espécie de religião, mas não há poeta, crente
ou descrente, que não escreva para a salvação da sua alma__ quer essa alma se chame
amor, liberdade, dignidade ou beleza.
Sophia de Mello Breyner Andresen


A mim, confortam-me como se fossem anjos caídos do céu e ajudam-me na (longa)
travessia dos dias. E trazem-me sempre qualquer coisa de barco, de cerejeira em flor, de mar
e de espuma, em ramos de luz, que me dão o alento para marear, ou ser árvore que procura
na terra o azul que foge do quotidiano e vai ao encontro do pássaro que não se deixa apanhar. 

domingo, 29 de janeiro de 2012

Música, levai-me:

Onde estão as barcas?
Onde são as ilhas?
Eugénio de Andrade
A vida é o fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos.

F. Pessoa

... a contemplar o domingo com as mãos nos bolsos, em desobrigação total.
Mestre na arte de marear



O amor não é fácil.
Nunca foi fácil. Nem nunca será fácil. Às vezes parece ser fácil: vem como quem não quer a coisa, vem muito ao de leve, muito devagarinho e enrola o nosso coração em ondas que se rebentam no peito, fazendo-nos pedir cada vez mais água salgada, mais marés... até que, sem darmos por isso, estamos a navegar num mar imenso, intenso; deslumbrados com tanto azul. Aí, deixamo-nos ir ao sabor da corrente...e tudo à nossa volta tende a tomar a forma do amor__ seja ela qual fôr __ e acreditamos no que o nosso olhar desvenda: um horizonte a perder de vista, no entanto, tão fácil de alcançar.
Mas o amor tem várias faces. Há nele um mar tumultuoso, com marés negras. Um mar que esconde lágrimas salgadas, difíceis de ultrapassar. Aí, navegamos contra a maré, revolvemos todo o azul, perdemo-nos em rumos inconstantes, esquecemo-nos da bússola na algibeira. E o nosso olhar transborda à deriva, nesse horizonte a perder de vista.
E aqui, o amor faz-nos marinheiros: endurece-nos os músculos, salga-nos a pele, faz-nos remar, mesmo quando temos vontade de naufragar. Ensina-nos a içar cordas, a bater braços de ferro, a desflorar vagas enormes, arrebatadoras que tendem a transformar a forma do amor em forma de inferno, e eis que a cartografia náutica derrama na nossa alma  o inferno de amar.
Aos mais fracos, àqueles que não têm um coração de marinheiro, o amor tende a mergulhar no vazio e a perder-se no abismo dos oceanos; aos que teimam em fazer-lhe frente, àqueles que se arriscam e persistem nesta viagem imprudente e sem destino certo, o amor surge imponente e potente, carregando o coração de outros tons. Outros tons que só alguns têm o privilégio de abarcar...e a estes, aos que não tiveram medo de o enfrentar, o amor retorna à sua forma original, a de embarcação ao largo da costa e faz-nos acreditar nele, e faz-nos encher de esperança que vale a pena avistar, nem que seja de relance, o tal horizonte a perder de vista, mas possível de atracar.
O amor não foi, não é nem nunca será fácil. Traz com ele vários rumos, várias rotas que não conseguimos contornar: vai e vem, vem e vai num movimento conturbado e desorientado que ora nos leva, ora nos arrasta...ora te glorifica tamanho raio de sol, ora te sacode pequeno grão de areia; mas é com ele que o canto das sereias se faz escutar.E é por ele que se navega neste mar desconhecido à procura da sorte, aquela que nos vai fazer desembarcar a bom porto. Porque, apesar de todas as aventuras e desventuras que sofremos com a passagem do amor, este também pode ser porto de abrigo___ o meu tem um nome: Manuel; o teu outro terá.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Confiar o bastante na vida para denunciar todos os fantasmas do negativo
Gilles Deleuze
Sexta-feira:
Prenúncio ou promessa de qualquer coisa branca

e limpa para dar algum sossego à alma que se
teima irrequieta.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Boa-noite...
que o sonho
nos mostre o lugar onde descansaremos as nossas dores,
onde percamos o pó que arrecadámos durante o dia. 

A Rosa e o Mar

Eu gostaria ainda de falar
da rosa brava e do mar.
A rosa é tão delicada,
o mar tão impetuoso,
que não sei como os juntar
e convidar para um chá
na casa breve do poema

O melhor é não falar:
sorrir-lhes só da janela.

Eugénio de Andrade
O meu Poeta preferido.
O meu companheiro de anos: aquele que foi e é sempre presença assídua cá em casa.
Um dos meus amores consentidos. Feliz. Renovado e resistente. Muito meu, muito cúmplice,
muito vivo e muito ave. E a cada instante, maior e maior e maior...
BOM DIA!

Hoje é dia da GULA.
Então, façamo-nos ao dia com um apetite voraz...

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012


Por aqui, reina a desobrigação. A diversidade. Retomam-se e largam-se caminhos.
Permite-se entrada a fumadores, mas também a não fumadores.
Ateiam-se silêncios e perturbam-se sentidos.
Como dizia o poeta: aqui é proibido proibir.
« Não sou alegre nem triste.
Verdade, não sei que sou. (...)»