quinta-feira, 8 de março de 2012

Para alguns, entre nós, o implacável dia chega
da grande escolha, da grande decisão
de dizer Sim ou Não.
Aquele que em si sentir a sede de afirmar
pronuncie-se sem demora.
Os caminhos da vida abrir-se-ão para ele
numa cornucópia de benesses.
Mas o outro, o que nega,
ninguém o poderá acusar de falsidade,
e repetirá cada vez mais alto a sua descrença.
Está no seu direito – e, contudo, esta pequena diferença.
Um “Não” por um “Sim” – afunda uma vida inteira.



 Constantive Cavafy

O dia está a entardecer. Não tarda muito a noite.
Entre mim e tudo o que se passa, o tempo é guardado
em horas que as mãos não sentem agarrar.
Sim, vou a caminho de casa.
Não, ainda não me perdi no caminho. 
Mas a noite não tarda aí...



A todas as mulheres que estão em casa, que estiveram toda uma vida a cuidar dos maridos, do lar, dos filhos, de tantas coisas que planeiam, gerem e amontoam pelo quotidiano; a todas essas que a sociedade despreza e não são valorizadas, porque metidas em casa num frenesim de trabalho que ninguém paga e que as desgasta: a essas mulheres dedico o dia de hoje, não porque sejam maiores ou mais importantes do que as outras, que saem todos os dias para o trabalho e que também dão conta de um rol de tarefas quase impossível de administrar, mas (e acima de tudo) porque são tantas vezes esquecidas, ignoradas e até anuladas, como mulheres de Armas, que valem pelo que são e pelo que enfrentam todos os dias, no seu mais perfeito anonimato.
— Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio… Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro… Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida… compreende?… a nossa vida, a vida inteira, está ali como… como um acontecimento excessivo… Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida. E então pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três tópicos que se equacionam. Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos, do Amor ou da Morte. Percebe? Uma dessas abstracções que servem para tudo. O cigarro consome-se, não é?, a calma volta. Mas pode imaginar o que seja isto todas as noites, durante semanas ou meses ou anos?

Herberto Helder
Foto tirada na Net.
 
 
 
Há dias assim. E noites que nunca mais acabam...