sábado, 24 de novembro de 2012

 
 Foto de Yann Pendaries        
 
 
Antigamente, lá mais para trás, eu complicava tudo; era muito nova, muito "pelo na venta", muito metidinha no meu mundo...
Hoje continuo metidinha no meu mundo, mas duma maneira completamente humilde... ( o que é que afinal se conquista? o que é que afinal se tem que mostrar aos outros? o que é que afinal é mesmo nosso?)

Um dia destes, vamos ao médico e a história é sempre a mesma: exames, por causa disto e daquilo;
análises por causa disto ou daquilo; sempre a pairar qualquer coisa mal, que não se liga, porque antigamente estava sempre tudo bem. Surpresa das surpresas o agora traz sempre algo que não está bem: Irra!

Olha-se para o lado: o cancro ou o "cagaço" do cancro acompanha a nossa jornada; ou é um vizinho, ou é um amigo, ou há a suspeita sobre nós mesmos, ou isto ou aquilo...
Portanto, o que se leva mesmo é saber estender as mãos, agradecer o bom que nos apareça pela frente, absorvê-lo porque não é de se demorar, deixarmo-nos de "narizes empinados", manda pedra aqui, manda outra acolá, põe ali um filtro, e tal e tal e tal... e começarmos a respeitar tudo o que nem sequer damos conta que existe à nossa volta.

O tempo conta-se ao contrário, percebem?
E por enquanto, há tempo para isto.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

A minha filha não é dada à poesia.
Mas hoje, ao estar muito feliz por ter tido a nota para dispensar a um exame, chegou-se perto de mim e disse:" Lembras-te daquele poema que me lias, enquanto eu desenhava na mesa da cozinha, que tinha a ver com pintar gaiolas, pássaros e penas...."
Ficámos as duas, num silêncio só nosso a escutar o poema, e apesar de saber que não liga a poemas, um estrondo por dentro aconteceu-nos.
Não sei se por ter a ver com pássaros...
Não sei se por lho ter lido tantas vezes...
Não sei se por lho ter dedicado quando atravessava uma dezena de anos...
Não importa; sei que se lembrou dele enquanto estava feliz.


Deixo-o transcrito em baixo, traduzido pelo "meu" Poeta.


 Para fazer o retrato de um pássaro

Pinta primeiro uma gaiola
com a porta aberta
pinta a seguir

qualquer coisa bonita
qualquer coisa simples
qualquer coisa bela
qualquer coisa útil
para o pássaro.
Agora encosta a tela a uma árvore
num jardim
num bosque
ou até numa floresta.
Esconde-te atrás da árvore
sem dizeres nada
sem te mexeres…
Às vezes o pássaro não demora
mas pode também levar anos
antes que se decida.
Não deves desanimar
espera
espera anos se for preciso
a rapidez ou a lentidão da chegada
do pássaro não tem qualquer relação
com o acabamento do quadro.
Quando o pássaro chegar
se chegar
mergulha no mais fundo silêncio
espera que o pássaro entre na gaiola
e quando tiver entrado
fecha a porta devagarinho
com o pincel.
Depois
apaga uma a uma todas as grades
com cuidado não vás tocar nalguma das penas
Faz a seguir o retrato da árvore
escolhendo o mais belo dos ramos
para o pássaro
pinta também o verde da folhagem a frescura do vento
e agora espera que o pássaro se decida a cantar.
Se o pássaro não cantar
é mau sinal
é sinal que o quadro não presta
mas se cantar é bom sinal
sinal de que podes assinar.
Então arranca com muito cuidado
uma das penas do pássaro
e escreve o teu nome num canto do quadro.

(tradução de Eugénio de Andrade do original “Pour faire le portrait d’un oiseau” de Jacques Prévert)

domingo, 7 de outubro de 2012


« Com o coração se pede. Com o coração se procura. Com o coração se bate e é com o
coração que a porta se abre.»
Tudo bem, que os animais são nossos amigos. Que não os devemos abandonar, maltratar, etc,etc;que mal se aviste um sem dono e sem destino, se gere uma corrente de solidariedade tremenda, se contacte todos os SOS's possíveis e imaginários da Protecção dos ditos, e alguns mais venturosos até são levados para casa e dá-se-lhes o tal do lar, tão ansiado... agora, onde está essa corrente humanitária quando passamos pelo jardim e num banco está deitado um homem em farrapos a dormitar, quando atravessamos a estrada e reparamos que uma mulher andrajosa rebusca o lixo, ávidamente, à procura de algo para comer, algo para vestir ou vender ou sei lá p'ra quê, quando à nossa volta seres humanos sem destino e sem dignidade se amontoam na paisagem, que cada vez se torna mais da mesma, mais "não se passa nada, isto é o pão de cada dia",sem ninguém que lhes deite a mão...?????????

É, acordei bem cedo. Fui dar uma caminhada pelo meio da neblina cerrada, o Domingo ainda por acordar, as árvores enormes a pingar orvalho, um verde a despontar lá no alto, mas que não traz salvação cá em baixo...
A sensação de perdição a caminhar ao meu lado e aquela enorme culpa de pertencer aos que têm, como veredicto final, os fantasmas que se encobrem com uma ou outra boa acção no dia-a-dia.

Eu sei. É tão mais fácil levar e tratar e chamar e socorrer um bichinho e ficarmos com aquele
gosto bom de que fizemos o que estava certo fazer.

sábado, 18 de agosto de 2012

Andou de roda de mim toda a tarde... a danada. A espraiar as suas asas, seduzindo-me como quem não quer a coisa... estancava por segundos a desafiar os meus instintos, cirandava ao redor, olhos fixos num azul a perseguir, como quem diz, vem...
comigo; vem comigo...
Fez-me companhia lá no alto, aterrando ao de leve como a oferecer-se para ser notada. Fez-me companhia quando trocou risadas ( para mim eram risadas) ao ludibriar-me com poses que nunca consegui captar através da máquina, que alucinada, focava em milhentas direcções.
Por fim, deixou-se cair num esquecimento qualquer, segundos a mirar o horizonte, talvez a rota a seguir, como se eu nem estivesse por ali. Foi aí que... zás! Apanhei-a meio tremida, neste momento de reflexão.
De rabo alçado, levantou vôo e nunca mais lhe pus a vista em cima, pois no fundo, estraguei-lhe a dimensão que a encerrava.
Fiquei só, do meu pedestal, a sentir o peso rouco do oceano...

sábado, 4 de agosto de 2012

A minha mãe não tem facebook.
É do tempo do papel e da caneta.
É do tempo de estar em casa a cuidar de nós: todos. Acima de tudo, do meu pai.
Que por culpa dela se fez menino em vez de se tornar um homem.
O meu pai tem facebook, mas não faz nada sem a minha mãe.
É do tempo de chegar a casa e a casa ser tudo o que ela é: a mãe, a guardadora do lar.
Ele não tem culpa. Ele é apenas o menino dentro da casa, que se fartou de ser
homem lá fora.
Ela é para ele o pilar da nossa casa. A Mãe.
Ele é para ela o chefe de família. O Pai. Mas também um de nós: meninos para sempre
debaixo das suas saias.
Ambos, são o lar que tem a vida lá dentro.
Ambos, são a vida que se crava no nosso lar
como o bem que procura o bem e ainda bem.


Foto retirada da Net.


terça-feira, 17 de julho de 2012

 A Reboleira é a freguesia onde vivo.
Terra, na sua maioria, feita de apartamentos do J. Pimenta, com algumas lojas de chineses pelo meio e umas tantas vivendas, onde vivem famílias que partilham espaços divididos. A vista alcança algumas árvores fustigadas pelos seus habitantes, caixotes de lixo de várias cores e tamanhos, que dia a dia, são depenicados pelos pombos que coabitam nas redondezas; nas traseiras, uma praça que fechou e, em vez de vender peixe e fruta, presta-se a ser alugada para comícios do PCP e o belo do Pingo Doce, que veio dar outra animação às ruas e, onde o povo vai a toda a hora, em busca das promoções onde possa  gastar a pouca moeda que procura, ávidamente, no bolso.
  Na minha rua, chamada de Herculano de Carvalho, assaltam velhinhas à descarada e os miúdos andam ao deus-dará, como o da canção descreve " parecem bandos de pardais à solta" e tiram macacos do nariz, sem pudor nem constrangimento.
 Alguém teve a fenomenal ideia de plantar palmeiras num vaso e elas transbordam em raízes e tronco, rebentando-os e dando à paisagem aquele ar de " caco partido", que tão bem lhe assenta...e que vai servindo de recreio aos gaiatos, onde inventam um tempo para fugir do lar apertado em que vivem.

 E depois há amizades, como em todo o lado... e risos, por mais despropositados e puros que sejam:
é que ter uma amiga da Reboleira, tem muito que se lhe diga; puxa pela imaginação e traz-nos a
Lucinda ( que quando a filha era pequenita, e lhe perguntavam onde morava, respondia sempre " moro na Burroleira", de sorriso inocente na cara ), coisa a que ela não desistia de corrigir, na esperança desta, um dia, deixar-se de burrices e encaminhar-se para o lado mais lúdico do nome da rua e consolar-se que, o tal de Herculano de Carvalho, foi aquele tipo responsável pela introdução e pelo desenvolvimento da narrativa histórica em Portugal.

 Mas acho que isso, por aquelas bandas, não interessa nada... e a rua é mais conhecida por causa da fábrica dos iogurtes Yoplait, que há uns tempos existia por ali.