Raul Brandão, Os Pobres |
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
Foto de Sangsinkhong
Não é que ser possível ser feliz acabe,
quando se aprende a sê-lo com bem pouco.
Ou que não mais saibamos repetir o gesto
que mais prazer nos dá, ou que daria
a outrem um prazer irresistível. Não:
o tempo nos afina e nos apura:
faríamos o gesto com infinda ciência.
Não é que passem as pessoas, quando
o nosso pouco é feito da passagem delas.
Nem é também que ao jovem seja dado
o que a mais velhos se recusa. Não.
É que os lugares acabam. Ou ainda antes
de serem destruídos, as pessoas somem,
e não mais voltam onde parecia
que elas ou outras voltariam sempre
por toda a eternidade. Mas não voltam,
desviadas por razões ou por razão nenhuma.
É que as maneiras, modos, circunstâncias
mudam. Desertas ficam praias que brilhaam
não de água ou sol mas de solta juventude.
As ruas rasgam casas onde leitos
já frios e lavados não rangiam mais.
E portas encostadas só se abrem sobre
a treva que nenhuma sombra aquece.
O modo como tínhamos ou víamos,
em que com tempo o gesto sempre o mesmo
faríamos com ciência refinada e sábia
(o mesmo gesto que seria útil,
se o modo e a circunstância persistissem),
tornou-se sem sentido e sem lugar.
Os outros passam, tocam-se, separam-se,
exatamente como dantes. Mas
aonde e como? Aonde e como? Quando?
Em que praias, que ruas, casas, e quais leitos,
a que horas do dia ou da noite, não sei.
Apenas sei que as circunstâncias mudam
e que os lugares acabam. E que a gente
não volta ou não repete, e sem razão, o que
só por acaso era a razão dos outros.
Se do que vi ou tive uma saudade sinto,
feita de raiva e do vazio gélido,
não é saudade, não. Mas muito apenas
o horror de não saber como se sabe agora
o mesmo que aprendi. E a solidão
de tudo ser igual doutra maneira.
E o medo de que a vida seja isto:
um hábito quebrado que se não reata,
senão noutros lugares que não conheço.
Jorge de Sena (1967)
A boca fecha-se, nos lábios que a prendem, e um gemido sente-se
muito lá ao fundo; tão lá ao fundo que só nós damos por ele.
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
Toda a tarde estive a brincar com o amor ( aquele que nem se dá por isso ). A brincar para o amor
achar graça e deixar-se ficar; a brincar como se o amor não fosse um caso sério; a brincar para que
o amor pairasse ao de leve sem se dar conta de que o tempo passava e passava e passava... até que
por fim, no meio da brincadeira, viesse connosco para casa.
Acho que consegui.
Mas agora, espreitando aqui de dentro, veio-me um medo... será ele a querer brincar comigo, desta
vez?
Foto de Michael Wilkinson
o amor pairasse ao de leve sem se dar conta de que o tempo passava e passava e passava... até que
por fim, no meio da brincadeira, viesse connosco para casa.
Acho que consegui.
Mas agora, espreitando aqui de dentro, veio-me um medo... será ele a querer brincar comigo, desta
vez?
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
A grandeza do homem consiste em que ele é uma ponte e não um fim; o que nos pode agradar no homem é ele ser transição e queda.Friedrich Nietzsche
Mulher, como te chamas? Não sei.
Quando nasceste, tua origem? Não sei.
Por que cavaste um buraco na terra? Não sei.
Há quanto tempo estás aqui escondida? Não sei.
Por que mordeste o meu anelar? Não sei.
Sabes, não te faremos mal nenhum. Não sei.
De que lado estás? Não sei.
É tempo de guerra, tens de escolher. Não sei.
Existe ainda a tua aldeia? Não sei.
E estas crianças, são tuas? Sim.
Wislawa Szymborska (1923-2012)
Prémio Nobel de 1996, considerada como o
"Mozart da poesia", morreu ontem aos 88 anos.
Quando nasceste, tua origem? Não sei.
Por que cavaste um buraco na terra? Não sei.
Há quanto tempo estás aqui escondida? Não sei.
Por que mordeste o meu anelar? Não sei.
Sabes, não te faremos mal nenhum. Não sei.
De que lado estás? Não sei.
É tempo de guerra, tens de escolher. Não sei.
Existe ainda a tua aldeia? Não sei.
E estas crianças, são tuas? Sim.
Wislawa Szymborska (1923-2012)
Prémio Nobel de 1996, considerada como o
"Mozart da poesia", morreu ontem aos 88 anos.
Fim de janeiro
Janeiro trouxe aquela coisa da crise, que nos vai enrolando a todos;
aquela coisa da seca, que nos inunda de preces a pedir chuva;
aquela coisa da quimioterapia da mãe ( que vai no sétimo tratamento),
que nos traz um tempo de estiagem, contrariado a toda a hora.
Mas, chegou ao fim, e estamos todos cá: a fazer pela vida, e por isso,
não há crise, nem seca, nem quimio que derrube o que somos, porque
todos estamos armados de árvores à espera da vinda da Primavera.
Janeiro trouxe aquela coisa da crise, que nos vai enrolando a todos;
aquela coisa da seca, que nos inunda de preces a pedir chuva;
aquela coisa da quimioterapia da mãe ( que vai no sétimo tratamento),
que nos traz um tempo de estiagem, contrariado a toda a hora.
Mas, chegou ao fim, e estamos todos cá: a fazer pela vida, e por isso,
não há crise, nem seca, nem quimio que derrube o que somos, porque
todos estamos armados de árvores à espera da vinda da Primavera.
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
Não sei se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito, ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha tristeza é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que eu amo não sei. Amo. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.
António Ramos Rosa
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito, ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha tristeza é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que eu amo não sei. Amo. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.
António Ramos Rosa
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
Eu disse ao meu coração, ao meu pobre coração:
─ Não tens vergonha da tua fraqueza?
A glória, o amor, a pândega, o ouro,
não saberão tentar a tua preguiça?
Eu disse ao meu coração, ao meu pobre coração:
─ Odeia, fere, embriaga-te, beija,
bate mais forte, grande cobarde, ou morre
para sempre de desgosto e tristeza.
Ou talvez já estejas morto, tu, que nem sabes o que vale
o canto de um alaúde, o estouro de um punhal,
uma clara noite, uma rosa terna?
E o meu pobre coração, o meu coração disse-me:
─ Para quê dar mais cinzas ao esquecimento?
E, velho, sorriu-me, sem perceber nada.
Màrius Torres
Foto de Kaylynn Deveney
─ Não tens vergonha da tua fraqueza?
A glória, o amor, a pândega, o ouro,
não saberão tentar a tua preguiça?
Eu disse ao meu coração, ao meu pobre coração:
─ Odeia, fere, embriaga-te, beija,
bate mais forte, grande cobarde, ou morre
para sempre de desgosto e tristeza.
Ou talvez já estejas morto, tu, que nem sabes o que vale
o canto de um alaúde, o estouro de um punhal,
uma clara noite, uma rosa terna?
E o meu pobre coração, o meu coração disse-me:
─ Para quê dar mais cinzas ao esquecimento?
E, velho, sorriu-me, sem perceber nada.
Màrius Torres
Foto de Kaylynn Deveney
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