Sou do tempo das infâncias carregadas de liberdade. Do esplendor da relva, dos joelhos esfolados, das mães à janela a chamarem por nós; quais pássaros desvairados, virmos em debandada a chilrear
e a protestar por mais um pouco de tempo na rua. Rua essa, que não era vista como perigosa nem
inóspita, mas antes, espaço aberto: tanto profano como sagrado, onde íamos crescendo e fazendo a
escolha entre o bem e o mal, através dum " macaquinho do chinês" ruidoso, ou de uma " linda, linda
falua que lá vem, lá vem", cantada com toda a pompa e circunstância.
Sou do tempo dos Domingos em vizinhança, das avós vestidas a rigor para o passeio semanal, das
petiscadas viçosas e valentes, que cada um fazia nos quintais ou varandas e desse ar prenhe de cozinhados que invadia a roupa estendida e o nariz das gentes. Das tardes acompanhadas dos tremoços lançados ao vento, a ver qual chegava mais longe; das cascas dos pevides cuspidas, à toa,
pelo caminho sem grande cerimónia, como se semeássemos gomos de liberdade.
Era o tempo dos Domingos da família, fabricado numa indolência de rastros azuis, ou verdes, ou de
outra cor qualquer, cuja única ambição eram os laços e afectos, de que na altura, nem dávamos conta.
Era o tempo da mãe nova, ágil e desenvoltada a dar conta do recado; do pai novo, conquistador de gargalhadas que terminavam sempre a ver o mundo dos seus ombros __ dunas resistentes que desvendavam generosamente os acontecimentos à beira de nós, no mais alto de nós.
Era o tempo dos Domingos desembrulhado como desembrulhamos um rebuçado que dá água na boca.
Hoje, desembrulho-o e fico com água nos olhos...

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